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A Crença De Ser Uma Mulher Maravilha Gera Sentimento De Inferioridade

A crença de ser uma Mulher Maravilha gera sentimento de inferioridade

A visão romântica sobre ‘mulheres guerreiras’ esconde batalha diária e faz com que muitas encarem burnout e ansiedade

Culturalmente, o Dia Internacional da Mulher é visto como o momento para exaltar a figura feminina, a “mulher-maravilha” do dia a dia. Elas não reclamam, não pedem ajuda e não se dizem fracas em nenhum momento. Dão conta de tudo e ajudam a todos; estão dispostas a sair às 6h, voltar às 19h, cuidar da casa, dos filhos e de si mesmas. O acúmulo de tarefas é tido como algo louvável, afinal, mulheres são guerreiras.

No imaginário social, essa seria a mulher perfeita, mas como afirma a psicóloga Letícia Gonçalves, esse é um perfil inalcançável e que acaba gerando pressão em cima daquelas que não o atingem. “A ideia vendida é de que todas as outras mulheres conseguem, menos ‘eu’, o que produz um sentimento de inferioridade”, diz a especialista. Apesar de todas as mulheres sofrerem com cobranças sociais, fatores como raça e classe ainda são essenciais para determinar quais exigências e tarefas pesam mais para certas mulheres.

Para Isabella Viana, conciliar a vida profissional com o ativismo dentro do movimento negro colocou sob seus ombros o peso de ser uma “modelo inspiracional”. “Todo mundo acha que a mulher negra tem de ser a Annalise Keating: perfeita, sem falhas, uma profissional muito competente”, diz, citando a personagem interpretada pela atriz Viola Davis que é, na trama da série How To Get Away with Murder, a melhor advogada em sua área.

A jovem chegou a cursar duas faculdades simultaneamente, trabalhar e ser voluntária aos fins de semana, até o momento em que toda essa sobrecarga começou a pesar sobre sua saúde mental: “Tive duas crises de burnout por conta do trabalho e da militância nos espaços que passei”.

O trabalho que vira doença não é mais novidade entre as síndromes psicológicas. Burnout é a síndrome do esgotamento profissional, classificada como doença crônica pela OMS em 2019. No Brasil, a estafa provocada pelo excesso de trabalho e competitividade atinge cerca de 33 milhões de pessoas – cerca de 32% dos trabalhadores -, e ocorre com maior incidência em mulheres, como relata pesquisa feita pela International Stress Management Association (Isma-BR).

Isabella ainda desenvolveu estresse crônico e anemia por conta das cobranças excessivas. Ela teve crises de depressão que a obrigaram a desistir de uma graduação na USP, do trabalho voluntário e a trocar de emprego. “Eu me cobro muito sempre. Na vida pessoal e, principalmente, profissional. Caio no estereótipo da mulher negra: preciso ser sete mil vezes melhor do que qualquer pessoa ali, então sempre estou me cobrando para não cometer erros, ser a funcionária perfeita, educada. Não gosto nem de demonstrar emoções no trabalho”, desabafa Isabella.

Ao sair do trabalho, a jornada de muitas estende-se para casa, onde as cobranças por perfeição seguem. As tarefas domésticas e os filhos não esperam, precisam ser igualmente bem atendidos.

Dia das mulheres

Essa história tão comum atinge a vida da funcionária pública Daniele Oliveira, que é mãe de dois filhos. Para ela, a exigência social vem constantemente acompanhada de culpa, por conta da maternidade. “Você está sempre achando que não faz o bastante para sua cria. Acha que não está educando da maneira correta e todas as outras milhares de dúvidas e questionamentos que vem junto com a maternidade”. Assim como Isabella, Daniele também passou por crises de depressão e ansiedade. Ela acabou desistindo da faculdade de psicologia para não arriscar o emprego e a estabilidade dos filhos. “Me cobro demais, não posso falhar com eles”, completa.

Não poder cometer erros é dos extremos que estigmatiza a figura feminina, que tem, do outro lado, o estereótipo romantizado da mulher sensível, como explica Letícia Gonçalves. “Embora o estereótipo universalista de que mulheres são frágeis, a expectativa social é, por outro lado, que elas acumulem trabalhos de várias ordens, de modo que demonstrem uma força significativa e incansável”, diz.

Para Pamela Nogarotto, universitária que engravidou ainda no primeiro período da faculdade de letras, ter o apoio da mãe antes e depois da maternidade a ajudam a lidar com a pressão cotidiana. “Eu tenho o privilégio de ter uma rede de apoio sólida e empática. Minha mãe sempre foi a pessoa que esteve ali sem que eu precisasse pedir. A minha hipótese é que ela conhece na pele o que eu vivo hoje”, diz. Seja pela falta de outras pessoas para contar como suporte ou por medo de críticas, reconhecer as próprias fraquezas é uma tarefa difícil e que leva muitas atravessam crises psicológicas sozinhas.

Isabella diz que essa ainda é uma barreira dura a ser vencida: mesmo com o passar do tempo e oito anos de terapia, ela ainda tem dificuldades de buscar por ajuda em momentos de sobrecarga. Daniele, por sua vez, entende que a busca por amparo vai além de dizer estar fraca. “Eu gostaria de ser compreendida, acolhida. Sem piedade, mas com atitudes que me ajudassem com essa sobrecarga”, diz.

Pamela reflete que mesmo com todo amparo que recebe, não é fácil enfrentar a sobrecarga diária. Assim como Daniele, ela reconhece a maternidade como um sentimento genuíno que tem a oportunidade de viver. Mesmo assim, se tivesse oportunidade, a jovem gostaria de rever certos momentos e escolhas sobre a própria história. “O que pretendo alcançar, e principalmente aceitar é a naturalidade de não ser apenas força ou apenas fraqueza. A beleza de poder ser várias, de dar o melhor de mim e aceitar minhas limitações. Mas é uma luta”, conclui.

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*As informações aqui contidas tem caráter informativo. Não substituem a orientação ou acompanhamento de um psicólogo.

Dr. Bruno Moraes

Pós Graduado em Neuropsicologia pela FMUSP.

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