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Dependência Emocional: O Que é, Causas E Sintomas

Dependência Emocional: O que é, Causas e Sintomas

O que é o amor?

Um sentimento que permeia muitas relações humanas é o amor. Dentre as diversas teorias psicológicas sobre o amor, Sternberg (1988) propõe a teoria triangular do amor, em que o descreve como resultado de três elementos: Intimidade, Paixão e Compromisso.

– A Intimidade refere-se ao sentimento de proximidade, ligação e conexão com o outro.

– A Paixão envolve a ânsia de se unir ao parceiro, sendo a expressão de desejos e necessidades como autoestima, amparo, afiliação, dominação, submissão e realização sexual.

– O último componente, compromisso, consiste em dois aspectos que não necessariamente ocorrem concomitantemente: o primeiro é de curto prazo, que seria a decisão de amar ao outro e o segundo a longo prazo, referente ao compromisso de manter esse amor. Entretanto, apesar da divisão dos componentes do amor em apenas três categorias, estas, quando combinadas, podem resultar em diferentes tipos de amor.

Como entendemos a paixão atualmente

Mais adiante, cientistas dividiram a paixão em dois componentes: erótica e romântica.

Assim, o modelo proposto consistiria em quatro elementos: Compromisso, Intimidade, Paixão Erótica e Paixão Romântica.

– A Paixão Erótica estaria relacionada à dimensão física e fisiológica do amor.

– Já a Paixão Romântica consistiria em ideias e atitudes impetuosas sobre o objeto amado, que seriam próprias da construção cultural do amor em nossa sociedade: pensamentos intrusivos, idealização, crença de que existe algo mágico na relação, identificação do companheiro com o ideal romântico de parceiro, entre outros.

– O fator Intimidade compreenderia aspectos recíprocos de um vínculo especial de união afetiva, tais como: apoio emocional, compreensão, entendimento, confiança, segurança e conforto junto ao companheiro.

– Por fim, o componente compromisso referir-se-ia à decisão de manter o relacionamento apesar das dificuldades encontradas, devido ao apreço e estima sentidos pelo amado e pela própria relação.

O amor e o cérebro

Outro aspecto que tem recebido atenção dos estudiosos são os mecanismos neurológicos envolvidos nas relações amorosas. Observa-se que os sentimentos amorosos utilizam as mesmas vias neurais que substâncias psicoativas, ativando os sistemas de recompensa do cérebro (Fisher, Aron, & Brown, 2005) e criando sintomas de dependência similares.

Portanto, apesar do termo “dependência” ser tradicionalmente ligado ao uso de substâncias ou drogas psicoativas, as dependências de sentimentos (denominação utilizada por Moral e Sirvent, 2009) ou as dependências de relacionamentos (denominação proposta por Sirvent, 2000) também merecem ser objeto de pesquisa e intervenção, visto que apresentam etiologia e sintomatologia semelhante à de outras dependências.

Neste sentido, a Dependência de Relacionamentos, segundo Sirvent (2000) seria caracterizada por comportamentos aditivos que teriam como base os relacionamentos interpessoais.

A dependência emocional em relacionamentos

Uma relação de dependência pode ser definida por quatro elementos: motivacional, afetivo, comportamental e cognitivo.

– O componente motivacional refere-se à necessidade de suporte, orientação e aprovação.

– O segundo componente, afetivo, está relacionado à ansiedade sentida pelo indivíduo diante de situações nas quais ele necessita agir independentemente.

– O componente comportamental alude à tendência a buscar ajuda de outros e de submissão em interações interpessoais.

– E o último componente remete à percepção do sujeito como impotente e ineficaz.

 

Mesmo tendo basicamente o mesmo significado, alguns termos são utilizados para se definir o mesmo conceito. O termo geralmente mais empregado é dependência emocional, seguido por dependência interpessoal, Transtorno de Personalidade Dependente, dependência amorosa, amor patológico, amor obsessivo e dependência nos relacionamentos.

Todos os autores que definiram a dependência emocional afirmam que o indivíduo com este transtorno necessita do outro para estabilidade emocional.

Como se desenvolve a dependência emocional?

Cientistas concordam  quanto à influência do desenvolvimento afetivo durante a infância nas relações amorosas futuras.

É necessário que a criança cresça em um ambiente afetuoso e seguro, com aceitação incondicional, para que consiga desenvolver sua identidade de forma sadia.

Assim, o apego, como comportamento aprendido durante a infância influenciaria nos relacionamentos da vida adulta, podendo levar o indivíduo a desenvolver relacionamentos sadios ou disfuncionais de acordo com a forma com que aprendeu a se apegar.

Desde a infância, precisamos de vínculos seguros que irão garantir um processo chamado apego seguro. E isso não significa apenas proximidade, mas uma relação de qualidade, quantidade e frustrações, possibilitando ao indivíduo o desenvolvimento de uma confiança e segurança na relação com os outros.

Tal processo facilita o crescimento emocional na medida em que se leva em conta as necessidades e respostas de cada um. Na prática, os relacionamentos bons criam um senso de liberdade e as pessoas ficam juntas por prazer e não porque precisam uma da outra.

O contrário disso caracteriza uma dependência, condição emocional ou comportamental que afeta a habilidade da pessoa em ter um relacionamento saudável e mutualmente satisfatório trazendo impactos negativos para esse convívio.

Outros fatores que também podem contribuir para o desenvolvimento da dependência emocional estariam relacionados aos níveis de seleção filogenético e cultural.

O primeiro seria o componente neurobiológico, que explicaria a dependência emocional a partir de uma fixação na superativação neuronal, frequente no início de relacionamentos; ou seja, o indivíduo necessitaria dessa atividade neuronal aumentada para se sentir confortável em seu relacionamento atual.

O segundo fator seria o cultural, associado principalmente à mídia, que retrata o amor como algo idealizado, sinalizando como um comportamento comum a obsessão e a dependência exagerada do objeto amado.

Estudos afirmaram que indivíduos caracterizados como dependentes emocionais tem maiores chances de realizarem/sofrerem violência doméstica e ainda assim manterem-se no relacionamento.

Além disto, apresentam maiores riscos de apresentar comportamentos autodestrutivos, doenças físicas e outras psicopatologias, como transtornos alimentares, transtornos ansiosos e somatizações.

A dependência emocional começa quando uma criança não é amada apropriadamente por pais, irmãos ou outras pessoas próximas. Essa falta de amor gera uma baixa autoestima que tende a crescer na adolescência. Depois de adulto, a pessoa dependente recria situações em que desempenha um papel submisso, sempre tentando agradar os outros, procurando evitar a perspectiva de rejeição.

A falta de uma boa autoestima desde a infância é a principal causa de dependência emocional. A autoestima da criança e sua capacidade de estar sozinha é construída através da confiança que seus pais depositam nela. A má autoestima é o resultado de uma chantagem emocional que ensina a criança  que ela será amada apenas depois de atender às expectativas de seus pais ou de outras pessoas significativas e que qualquer esforço para se afirmar ou mostrar sua individualidade será reprovado ou punido.

Qual o perfil de um dependente emocional?

Com relação ao perfil cognitivo, os estudos divergem. Alguns encontraram que os dependentes emocionais possuíam crenças centrais de dependência e paranoia, dificuldades em lidar com mudanças e uma dificuldade em elaborar sua autonomia.

O esquema inicial desadaptativo predominante foi o de desconfiança/abuso. Outros estudo apontam a distorção cognitiva que mais diferenciava os dependentes emocionais da população geral eram a falácia de controle e as “deverias”.

Ainda sobre o perfil dos dependentes emocionais, observaram-se:

– comportamentos de submissão ao outro

– sinais de fissura e abstinência na ausência do objeto amado

– ausência de decisões nos relacionamentos

– sentimentos de insatisfação

– vazio emocional

– medo da solidão

– baixa tolerância a frustração

– tédio

– desejo de autodestruição e sentimentos negativos

– falta de consciência sobre seus problemas

– sensação de estarem presos ao relacionamento e de que não conseguirão deixá-lo

– conflitos de identidade

– foco excessivo no outro e autonegligência

– assunção de toda a responsabilidade pelos acontecimentos e necessidade de ajudar o parceiro, tentando resolver todos os problemas.

Estudos também encontraram que os pacientes diagnosticados com dependência emocional eram mais impulsivos, apresentavam traços de evitação a danos, autotranscendência e possuíam relações mais insatisfatórias, quando comparados aos demais.

De modo geral, as pessoas que tem dependência emocional são descritas como submissas, com dificuldades de tomar decisões em seus relacionamentos, sentindo-se responsáveis por todos os acontecimentos e centrando-se completamente em sua relação. Assim, tendem a prestar cuidados excessivos ao outro e resolver os seus problemas, mesmo que isso implique em se auto negligenciar.

Alguns comportamentos pessoais são indicativos da dependência emocional. Entre eles, a necessidade de estar perto de outras pessoas; a busca por confirmação e apoio às suas ações e de reasseguramento delas; sentimento de culpa; medo obsessivo de perder o amor das pessoas; evitação de tomar decisões importantes; lamentação por problemas insolúveis; incapacidade de tomar decisões por si próprio; insegurança sobre o futuro; constante procrastinação de ações; baixa autoestima; simulação de grandiosidade infantil; rebelião, agressão e incapacidade de cooperar; incapacidade de comprometer-se com algo ou recusá-lo peremptoriamente; buscar frequentemente por conselhos, não os seguindo ou encontrando defeitos neles e um sentimento constante e dominante de ansiedade.

As pessoas emocionalmente dependentes muitas vezes dão a impressão contrária porque adquirem uma grande quantidade de conhecimento ou habilidades, embora tenham dificuldades em implementá-las. Frequentemente, cursos de estudo ou de especialização são iniciados com muito entusiasmo, mas abandonados antes da conclusão. Em suma, muitas vezes, essas pessoas podem ter aspirações elevadas que, no entanto, nunca são perseguidas de forma realista. É possível que pareçam brilhantes, inovadoras e talentosas, porque os objetivos podem ser perseguidos mental e verbalmente sem, no entanto, executar etapas práticas.

Todas as escolhas sempre têm algum lado negativo. A pessoa dependente estará muito relutante em aceitá-lo, assim como qualquer desvantagem. A maioria das pessoas dependentes fica feliz em ajudar alguém, mas fica frustrada quando não consegue terminar essa interação. As pessoas emocionalmente dependentes tendem a se sentir atraídas por pessoas que parecem ser muito seguras em si mesmas e que têm uma personalidade dominante, sentindo-se protegida ou amada. No entanto, é um grande erro confundir amor com dependência. Isso pode acontecer, particularmente, quando a autoestima de uma pessoa é baixa e ela está procurando por aceitação e amor dos outros.

Infelizmente, os emocionalmente dependentes não conhecem o amor genuíno entre duas pessoas que se respeitam e trocam afeição; têm dificuldade em tomar as rédeas de suas próprias vidas e esperam ser “achados” algum dia por aquela pessoa especial que os farão felizes e acabarão com sua solidão e angústia existencial.

A dependência emocional atinge mais os homens ou as mulheres?

Não se encontrou um consenso nas pesquisas no que se refere à prevalência de gênero neste transtorno. Uma possível explicação para essa questão seria o fator cultural, uma vez que em algumas culturas se acredita que para as mulheres um relacionamento é essencial para a felicidade, e que elas devem ser submissas aos seus maridos, satisfazendo todos os seus desejos.

Além disto, o modo como as relações amorosas são retratadas na mídia e na literatura também acabam por reforçar os padrões patológicos da dependência emocional. Dessa forma, os fatores culturais, muitas vezes, levam os indivíduos a almejar relacionamentos dependentes, ou então, quando os vivem, acreditam que esta dependência seja “normal”.

 

Conclusão

Apesar desta grande influência cultural no desenvolvimento e manutenção do transtorno, os estudos revisados mostraram que a dependência emocional deve ser entendida como um transtorno multifatorial, sendo influenciada também por fatores neurológicos e psicológicos.

Pesquisas recentes têm investigado sobre as bases neurológicas do amor, encontrando que estas se assemelham aos mecanismos envolvidos na utilização de substâncias psicoativas.

Por outro lado, a vivência familiar e os estilos de apego aprendidos também contribuem com a dependência emocional. Estudos afirmam que os estilos de apego aprendidos durante a infância seriam repetidos na idade adulta, sendo predominante na dependência emocional o apego preocupado e o apego ambivalente.

Em ambos, é predominante a visão negativa de si mesmo e a positiva de outros. Indivíduos com estes padrões de apego apresentam maiores índices de culpa em situações de rejeição social, e cuidados e envolvimento excessivo com o outro.

Assim, uma disfunção nos mecanismos neurais ou a sua junção com outros fatores, como o ambiente familiar, os estilos de apego e a cultura poderiam levar o indivíduo a estabelecer relações patológicas.

Os comportamentos autodestrutivos e as comorbidades (doenças associadas) também parecem fazer parte do quadro de dependência. Deste modo, a dependência emocional pode estar associada a transtornos alimentares, transtornos ansiosos, somatizações e depressão.

Além disso, aumentam as chances de o indivíduo cometer suicídio ou para-suicídio, que ocorreriam na tentativa de impedir o abandono por parte do parceiro, mostrando sua vulnerabilidade, impulsividade e baixa tolerância à frustração, características próprias dos dependentes emocionais.

Aparentemente, homens que são emocionalmente dependentes de suas parceiras tendem a desempenhar mais frequentemente o papel de abusadores, enquanto que as mulheres dependentes tendem a ser vítimas.

O dependente emocional tende a ser possessivo e tem medo de ser abandonado, além de ser mais impulsivo e ciumento. Portanto, no caso dos homens, ao perceberem algum perigo em sua relação, seja ele real ou imaginário, podem tornar-se violentos e abusar de suas parceiras.

No caso das mulheres, que geralmente são apontadas como vítimas, a dificuldade de término de relacionamento ocorre pelo medo de ficar sozinha e pelo sentimento de estar atada à relação.

Porém, é importante interpretar esses dados com cautela, uma vez que o fato de que todos os estudos na área investigam sempre homens como abusadores e mulheres como vítimas e não o inverso. Também é importante lembrar o caráter de adição da dependência emocional, o que torna ainda mais difícil romper o relacionamento, principalmente pelos sintomas de fissura e abstinência que acometem o indivíduo ao tentar sair da relação.

 

Bruno Moraes Freire de Souza

Neuropsicólogo

CRP 06/119065

 

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Dr. Bruno Moraes

Pós Graduado em Neuropsicologia pela FMUSP.

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